domingo, 5 de outubro de 2014

O Vento (Florbela Espanca)


O vento anda ficando mentiroso:
prometeu trazer você, não trouxe,
de dizer o porque, não disse;
esperou que eu me distraísse,
passou com pressa, rumo ao horizonte.

Já não tem importância que cometa
outra vez um ato de inconstância.
Aprendi a esperar.

Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora também são
capazes de fazer voltar.

sábado, 4 de outubro de 2014

Tua Porta


Todos os dias passo em tua porta
A fim de ver-te, entanto não te vejo;
À casa volto de esperança morta,
Com a desilusão de meu desejo.

Isto meu coração não mais suporta,
Já me tornei um verdadeiro andejo,
Acima e abaixo nessa rua torta...
Não consigo te ver como planejo!

Eu quisera te ver a todo instante:
Sem falta, ao menos, uma vez por dia,
Quanto isso consolaria-me bastante...

Em que lugar remoto, em que refolhos
Te ocultas, se tornando fugidia
Aos ardentes desejos de meus olhos?... 



OLIVEIRA MARQUES, Manoel - Poeta, jornalista e advogado. Nasceu na cidade de Coroatá-MA no dia 15/09/1897. Poema publicado no livro "Caderno de Marlene", 1969.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Grilhões (Rosane Lima)




A ti, sempre me vejo acorrentada
por aros frios, algemas de saudade.
E quanto mais me apertam com maldade,
menor é o desejo de ser libertada.

Porque se estás presente e eu sou ausência,
pior é ausente, a tua presença estar.
O nosso encontro é um jogo de azar,
pois se me ganhas, cedo-me em falência.

Já sei quem vale mais: não é a riqueza.
E se esse amor cretino é só pobreza,
por ele, eu abdico de milhões.

Assim, de vez, me rendo a teus grilhões.
E nasço e morro a cada dia santo,
a amar-te mais, atada ao teu encanto

sábado, 27 de setembro de 2014

Homem Amado (Francisca Girlene)

 

Do seu semblante risonho, 
eu estampei de amor o meu coração. 
Por mais distante que esteja, 
cresce em mim a certeza, 
do amor que sinto por ti. 

Às vezes peço calmamente ao vento, 
que enxugue os meus olhos, 
lacrimejantes de saudade, 
e traga notícias suas para, enfim, 
confortar o meu coração. 

Pois não há meu amado, 
um só dia sem que eu me lembre: 
do teu olhar aconchegante, 
das tuas carícias maliciosas, 
da tua voz suave, 
da essência natural do teu corpo.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO



Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo. Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado. Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar.

Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades…

As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.

Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.

Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.

— Tenho de ir — dizia.

— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar......

— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera.

Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu.

Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz. Acordou de madrugada, com um gemido triste do pássaro…

— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente.

Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…Até que não aguentou mais. Abriu a porta da gaiola.

— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…

E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra " Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje"…

Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar.

Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…

E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”

E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.


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Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade. Tudo se enche com a presença de uma ausência. Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas… Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços. Esta história, eu não a inventei. Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.Claro que são para crianças.Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…


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Rubem Alves (1933-2014) foi teólogo, pedagogo, poeta e filósofo brasileiro. É autor de diversos livros, sobre diversos assuntos, entre eles, filosofia, teologia, psicologia e histórias infantis.

Ai! Se sêsse!...


Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!


Se juntinho nós dois morasse,
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?

Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?

E se eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu eu furasse?...

Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse!!!
Mas pra sempre a genti se amasse.



(Severino de Andrade Silva (Zé da Luz), nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965. O trabalho de Zé da Luz é conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.)

sábado, 20 de setembro de 2014

Os Olhos Do Meu Amor



Ah! Se fossem meus esses olhos
Que sem ter mãos me tocam
E sem ter lábios me suscitam beijos
Esses olhos que me furtam o fôlego
Que dão medo n’alma
E outrora acalmam
Um coração tão só

Ah! Se pudesse eu
Tocá-los com as pontas dos dedos
E dizer-lhes que os quero meus
Esses olhos que me deixam nua
Que me fazem tua
Esses olhos que me dão adeus

Ah! Se pudesse eu
Ser a dona deles
Se tivesse forças de falar com Deus
Pediria e ELE que tu fosses meu
E que eu fosse a menina
Desses olhos teus. 




Poema extraídos do livro BALAIO DE DESEJOS,
da caxiense Ana Rosaria Soares,
Caxias-Maranhão, 2002.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Poesia Matemática (Millôr Fernandes)




Às folhas tantas do livro matemático
um Quociente apaixonou-se um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram
(o que, em aritmética, corresponde
a alma irmãs)
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações ediagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo, chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a
Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade