sexta-feira, 5 de março de 2010

Meu desejo, na maioria das vezes (Gabito Nunes)


Eu desejo que cuide da minha gripe
mas que na maioria das vezes
eu te proteja de todos os vírus e bactérias
assim cumprirei a promessa de te afastar o mal


Eu desejo que você me libere para o futebol
mas que na maioria das vezes
você brigue comigo e peça mais atenção
assim saberei que ainda te provoco saudade


Eu desejo chorar escondido no teu colo
mas que na maioria das vezes
eu lhe dê meu ombro para que chores
assim terei certeza que ainda sou seu porto seguro


Eu desejo visitar bares com meus amigos
mas que na maioria das vezes
eu queira estar do teu lado vendo o Hugh Grant na TV
assim sentirei prazer em perder tempo com você


Eu desejo olhar para outras pernas lisas
mas que na maioria das vezes
as suas coxas sejam o maior objeto da minha afeição
assim saberei que o meu tesão não terá fim


Eu desejo rir bastante
mas que na maioria das vezes
eu faça você gargalhar com situações cotidianas
assim saberei que ainda sou o seu amigo mais engraçado


Eu desejo fazer sexo com você
mas que na maioria das vezes
nosso contato íntimo tenha olho-no-olho
assim jamais esquecerei que é importante ‘fazer amor’


Eu desejo nunca brigar contigo
mas que na maioria das vezes
a raiva tome conta e faça você me atirar objetos
assim saberei que você ainda se importa


Eu desejo me divertir em festas
mas que na maioria das vezes
você fique ‘alegrinha’ e me tire do sério
assim eu terei certeza que você também se diverte


Eu desejo nunca precisar discutir a relação
mas que na maioria das vezes
seja preciso ajustar o ‘azimute’ do nosso amor
assim terei um norte onde atracar meu navio.

FÓRMULA PARA DOR DE AMOR (Gabito Nunes)


A melhor fórmula para ganhar na loteria é jogar. A melhor fórmula para evitar o stress é sorrir. A fórmula para poupar o rosto das rugas é não encarar o espelho. Para não envelhecer, mentir a idade. Para conquistar alguém, Vinícius de Moraes. Para cólica, Atroveran. Para esconder as lágrimas, chorar na chuva. Para infidelidade, Lupicínio Rodrigues. Para temperar, sal de cozinha. Para má digestão, sal de frutas. Para azar, sal grosso.



A melhor fórmula para receber uma boa notícia é desligar a televisão. A melhor fórmula para curar a gripe é limão e mel. Para emagrecer, toma-se vergonha na cara. Para casar, toma-se atitude. Para enxaqueca, toma-se analgésico. Para tranquilidade, toma-se chá de cidreira. Para saudade, toma-se a frente. Para diabetes, toma-se insulina. Para insultar, tomar naquele lugar. Para depressão, toma-se fluoxetina. Para ir, toma-se ônibus.

A melhor fórmula para rir, é cócegas. A melhor fórmula para ganhar um abraço, é descruzar os braços. Para comer queijo, goiabada. Para beber uísque, gelo. Para comer pipoca, guaraná. Para ferida aberta, mertiolate. Para cair no chão, bicicleta. Para levar um tapa, avançar o sinal. Para inteligência, ler. Para um jantar romântico, velas. Para barba, loção. Para emoção, Clarice Lispector. Para insônia, Lexotan. Para gravidez, masturbação.



Para febre, termômetro. Para tétano, injeção. Para Alzheimer, palavra-cruzada. Para câimbra, alongamento. Para catapora, paciência. Para tosse, mão na boca. Para arrepio, sinal da cruz. Para verruga, não apontar estrelas. Para não ficar torto, não sair no vento. Para amargura, chocolate. Para Aids, camisinha. Para miopia, lentes de contato. Para raiva, contagem regressiva. Para hipocondria, placebo. Para inveja, arruda. Para frio, cobertor.

Para dor de barriga, erva-doce. Para dor de câncer, morfina. Para dor da culpa, Sigmund Freud. Para dor de choque elétrico, precaução. Para dor de dente, dentista. Para dor da solidão, bossa nova. Para dor nas costas, quiropraxia. Para dor de cotovelo, amor de sogra. Para dor de cabeça, mulher bonita. Para dor na consciência, perdão.

E a melhor fórmula para dor de amor? Aceitar de uma vez só que não tem fórmula, injeção, chá, antídoto, xarope, receita de vó, comprimido, remédio ou solução.

terça-feira, 2 de março de 2010

Todas as cartas de amor... (Álvaro de Campos)

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.


A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.


(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente Ridículas.)

Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética".

AMOR CATIVO ( Oriza Martins)


Meu sentimento era ave cativa
Aprisionada neste coração,
Ansioso pela chegada de alguém
Que o libertasse da sutil prisão.

E tu chegaste!...
Transformaste, meu anjo, este peito
Em misto de grilhões com liberdade,
Pois meu amor de novo está cativo,
Porém nas fímbrias da felicidade...

Sexy...sagenária (desconheço a autoria)



Uma sexagenária resolveu fazer hidroginástica. Cheia de gás e autoconfiança, entrou na secretaria da academia. Mal chegou, a professora olhou-a de cima abaixo e avisou:

- Precisamos proceder a uma avaliação.

Pegou uma ficha, preencheu com seu nome e endereço e mandou brasa:

- Então a senhora já tem mais de sessenta anos?
- Pois é, minha filha, há seis anos virei sexy.
- Como? A senhora disse sexy?
- É, sexy de sexagenária, entendeu?
- A senhora tem falta de ar?
- Não, tenho falta de dinheiro.
- Às vezes sofre de tontura?
- Sofro com as tonteiras dos outros.
- Tem hipertensão?
- Não, tenho hipertesão.
- É diabética?
- Não, sou diabólica.
- Tem alergia?
- A mulher.

A esta altura, a moça não se conteve:

- A senhora é doida?
- Por homem!!!

"O MAIS FANTÁSTICO DA VIDA É ESTAR COM ALGUÉM QUE SABE FAZER DE UM PEQUENO INSTANTE UM GRANDE MOMENTO . "

segunda-feira, 1 de março de 2010

A Serenata (Adélia Prado)



Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que ele vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Doidas ou Santas (Martha Medeiros)


"Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou viro santa". São versos de Adélia Prado, retirados do poema "A serenata". Ele narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não doida ? Como a fecharei, se não for santa ?". Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz.

Como pode uma mulher buscar uma definição exata pra si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada, onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo mais estrada pela frente ? Se ela tiver coragem para passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam -, terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso ? Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim , e a minha mãe ??? Nem ela, caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa, mesmo, só Nossa Senhora, mas, cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou ? (não se escandalize, não me mande emails, estou brin-can-do). Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo ? Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo para o alto e embarcar em um navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar a loura e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor do que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota. Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada ? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra."

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Vida (Augusto Branco)


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é "muito" para ser insignificante.