quarta-feira, 30 de agosto de 2017

AUTO-RETRATO (ADAILTON MEDEIROS)


AUTO-RETRATO

Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer

Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)

Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio 




Adailton Medeiros, nasceu em Caxias, Maranhão, 1930. Filho de Nadir Medeiros e Raimunda Lemos Medeiros. Estudou jornalismo em Niterói, Rio de Janeiro., e depois mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.  Escreveu vários livros. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O Morro do Alecrim (Antonio Gonçalves Dias)




O MORRO DO ALECRIM 
Antonio Gonçalves Dias
Texto original Primeiros Cantos, 1846

Cachias, como és bella ! — no deserto,
Entre montanhas, derramada em valle
De flores perennaes,
És qual tênue vapor que a brisa espalha
No frescor da manhã meiga soprando
A flor de manso lago.

Tu és a flor que despontaste livre
Por entre os troncos de robustos cedros,
Forte — em gleba inculta
És qual gazella que o deserto educa
No ardor da sésta debruçada exangue
Á margem da corrente. 

Não tens em molle seda occulto as graças,
Não cinges d'oiro a fronte que descancas
Na baze da montanha;
És bella como a virgem das florestas,
Que vê nas agoas desenhar-se as formas,
Firmada em tronco annoso.

Que monte além se eleva negrejante!
Na areia a baze enterra, e o dorso ingente
De rija pedra mosqueado amostra;
Estéril como elle é, dizer parece
Que a ira do Senhor ardendo em raios
A seve d'hartos troncos — de mil annos
Apagou — cousumio — n'um breve instante.

Mas não; a rubra cor que ahi se enxerga
É sangue que correo;
Cada pedra que hi jaz encerra a historia
D'um bravo que morreo.

E raios mil de guerra em morte involtos
Já lá do cimo agreste da montanha
Sibilando e gemendo à funda baze
Baixarão sussurrando.

É do povo o Sinai, que o nobre sangue
Independente e forte — em lide accesa 
Na arena derramou;
E o filho inda lá vai cheio de orgulho,
Do pae beijando o sangue em largos traços
Que a pedra conservou. 

II

E quando alva lua no céo vai brilhando
O disco formoso lusente mostrando,
Então quando as ondas mais vividas crescem
E mais contra a praia a bramir se enfurecem;
Descendo das nuvens ao monte orgulhoso
Infausta se amostra sinistra figura,
Mais negra que as trevas, que fora pasmoso
Ser esse phantasma de humana natura.

E quando é que se vê? — Quando nos bosques
A flor mais puro seo por fumo exhala,
Quando nas folhas o sussurro morre.
Quando das aves o gorgeio pára.

Quando immundo tatú na conxa involto
Vai de manso volver minada campa,
E a coruja sedenta a luz dos mortos
No fronteiro pano da muralha estampa. 

Desde quando apparece? — Ninguém sabe,
E talvez appareça sem ler fim;
Só um em cujo peito horror não coube
Já do phantasma a voz ouvio assim.

Manito — Manito — cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis;
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infelis!

Manito — Manito — descobre o teo rosto,
Bastante nos pesa da tua vingança;
Já lagrimas tristes chorarão teos filhos,
Teos filhos que chorão tão grande mudança.

O triste Anhangá de mui longe nos trouxe
Filhos de Tupan, essa raça damnada,
Emvão deu-lhe off'rendas o Piaga divino
Tocando a maráca na dança sagrada.

Emvão neste monte lhe veio offerlar
A pel'maculada de tigre raivoso,
E fructos, e fructas — e a pe`cambiante
Da Bóa vistosa de corpo pasmoso.

Manito — Manito — cobriste o teo rosto
Com denso velamen de pennas gentis; 
E jazem teos filhos clamando vingança
Dos bens que lhes deste da perda infeliz.

Teos filhos valentes, temidos na guerra,
No albor da manhã quão fortes que os vi!
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça, no arco tupi.

E hoje em que apenas a enchente do rio
Cem vezes hei visto crescer — abaixar..
Já restão bem poucos dos teos qu'inda possão
Dos seos, que já dormem , os ossos levar.

Teos filhos valentes causavão terror
Teos filhos enchião as bordas do mar,
As ondas coalhavão de estreitas igáras
De frexas cubrindo os espaços do ar.

Já hoje não cação nas matas tão suas
A corça ligeira — o trombudo coali.
A morte pousava nas plumas da frexa,
No gume da maça — no arco tupi.

O Piaga nos disse que breve seria,
Manito , dos teos a cruel punição;
E os teos inda vagão por serras, por valles,
Buscando um asilo por invio sertão! 

Manito — Manito — descobre o teo rosto,
Bastante nos pesa da lua vingança;
.lá lagrimas tristes chorarão teos filhos,
Teos filhos que chorão tão grande tardança. 



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Segundo o escritor Emilson Sanches, o poema “O Morro do Alecrim”, apareceu apenas na edição de 1846 dos "Primeiros Cantos" gonçalvinos, na parte das "Poesias Americanas", sendo, nas edições seguintes, em parte suprimido, em parte desdobrado em dois outros poemas bastante lembrados: “Caxias” e “Deprecação”. 

Referência: Gonçalves Dias, Antônio. Primeiros Cantos. Poesias. Rio de Janeiro: Casa de Eduardo e Henrique Laemmert, 1846, pp. 24-9. Consulta feita ao acervo digital da Biblioteca Universidade de São Paulo (https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/4135/1/006342_COMPLETO.pdf


terça-feira, 22 de agosto de 2017

PARA CAXIAS - SILVANA MENESES




sussurra no meu ouvido
balança-me, tremula as palmeiras
não existe mais exílio
estou em casa
com o tempo aqui preservado
os becos exalam antigos segredos
as águas ainda murmuram suas canções
os paralelepípedos
sufocados pelo asfalto
outrora pisados por poesia
resistem tal qual
as palmeiras e a sensibilidade
os pássaros voam e pousam
nas vidas entrelaçadas
o canhão lá no morro 
guardando o passado
- que de tão longe me dá uma saudade -
com as lembranças adormecidas
numa gaveta a sete chaves.



Fonte: MENESES, Silvana Lourença. Outras Palavras. São Luís: Gráfica e Editora Aquarela Ltda., 2005.

Ser Nordestino (José Armando Rodrigues de Sousa)



Sou nordestino do agreste
Nascido no Estado do Maranhão
Sou um famoso cabra da peste
Com amor, ternura e satisfação

Tenho orgulho do que sou
Divulgo com fervor aquilo que herdei
Pois sendo nordestino sempre estou
Elevando o torrão que sempre amei

Sei que o povo te admira
Meu querido nordeste sertanejo
Quando falam o teu nome

Vem dentro de mim certo desejo
De sempre ter algo que sempre me inspira
E de te valorizar eternamente sem medo


Caxias dos Amores (Alberto Pessoa)




Caxias única, singular
A tua história triste
É bela para se contar
Mas tua sina resiste

Teus dias estão escritos
Nas peripécias da poesia
Nas ruas aventuras, magia
Na paixão de mil amores

Minha cidade de amor
Que embeleza meus dias
Qual o canto do beija-flor

Sei bem que sofro a tua falta
Mas o que mais me maltrata
É saudade de ti, que mata.


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Parabéns pelo seu Aniversário



Meu querido Bruno

Parabéns pelos seus 34 anos.

Primeiramente, quero te desejar toda a felicidade do mundo, não só nesse dia mas como em todos os dias de sua vida e que você consiga realizar todos os teus sonhos. 

Sabe aquela frase clichê "O aniversário é seu. Mas quem ganhou o presente foi eu”. Eu concordo plenamente com ela. Quer saber por que sou eu quem ganhou o presente? Porque eu tenho o melhor amigo do mundo. 

Agradeço por cada momento que passei a seu lado até hoje, desde quando éramos criança e não fazíamos ideia da história que construiríamos juntos. Agradeço por ter me escolhido como a sua melhor amiga e obrigada por ser meu melhor amigo. Agradeço por você ser essa pessoa incrível, maravilhosa, generosa, atenciosa, apaixonante . Agradeço por existir e por fazer parte da minha vida. Conte comigo sempre. Espero comemorar com vc essa data tão importante até quando tivermos velhinhos, ou seja, voltarmos a sermos crianças de novo.

Um beijo bem grande. De sua amiga que te ama muitão. 

Girlene

domingo, 20 de agosto de 2017

Homenagem a Joaquim Vespasiano Ramos


Inaugurado na amanhã desde domingo, 20, na Praça Vespasiano Ramos, uma efígie em homenagem ao poeta Joaquim Vespasiano Ramos, que dá nome ao logradouro público.

O projeto de finaciamento coletivo idealizado pelo poeta e vice-presidente da instituição, Renato Meneses, foi desenhado pelo arquiteto Ezíquio Neto e esculpido pelo escultor Eduardo Sereno. Além disso, o monumento conta com uma planca onde estão relacionados os nomes de todos que contribuíram para a sua construção.
 
 
Francisca Girlene e Ramundo Medeiros, presidente da ACL

Vespasiano Ramos nascido em Caxias no dia 13 de agosto de 1884, passou seus últimos dias em Porto Velho. Autor livro "Cousa Alguma", editado em 1916, ele é patrono da Cadeira nº 32 da Academia Maranhense de Letras e da Cadeira nº 40 da Academia Paraense de Letras. Tornou-se duplamente imortal por seus méritos, e vive assim para sempre na memória dos que amam a poesia. 



CRUEL

Ah, se as dores que eu sinto ela sentisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse;
talvez nunca um momento me negasse
tudo que eu desejasse e lhe pedisse!

Talvez a todo instante consentisse
minha boca beijar a sua face,
se o caminho que eu tomo ela tomasse,
se o calvário que eu subo ela subisse!

Se o desejo que eu tenho ela tivesse,
se os meus sonhos de amor ela sonhasse,
aos meus rogos talvez não se opusesse!

Talvez nunca negasse o que eu pedisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse
e se as dores que eu sinto ela sentisse!...


sábado, 19 de agosto de 2017

NOVOS IMORTAIS DAS LETRAS CAXIENSES


O poeta Carvalho Júnior, a professora Jordânia Pessoa e o arquiteto e historiador Ezíquio Neto foram empossados na noite deste sábado, 19, na Academia Caxiense de Letras - Casa de Coelho Neto. 

A sessão solene de posse dos novos acadêmicos aconteceu na sede da ACL, seguida do laçamento dos livros: “Desafios à Teoria Econômica” do acadêmico Antônio Augusto Ribeiro Brandão; "Festa no Céu e Outros Contos" da professora Joseane Maia; "No Alto da Ladeira de Pedra", do poeta Carvalho Junior e "Cidade de Cristal" do músico e historiador Isaac Souza.

Parabéns aos ilustres caxiense que honram a nossa cidade com a sua rica produção literária. 

Jordânia Pessoa, Carvalho Junior e Ezíquio Neto