quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Caxias - Afonso Cunha, poeta caxiense


Muitas vezes pensando nos remotos
Dias ilustres desta grande terra,
Vejo passarem diante dos meus olhos,
Soberbos e mais belos do que nunca
Os heróis das batalhas mais famosas
E os peregrinos poetas que os cantam.

Vejo no altivo Morro das Tabocas,
Batidos pelo sol quente de agosto
Aqueles que, no entrechocar da luta,
Ergueram tanto o nome de Caxias,
Que, embora decorridos tantos anos,
Caxias sente que combatem ainda!

E é por isso, talvez, que este meu povo,
Quando se lhe antepõe a tirania,
Tem atitudes de guerreiro antigo:
E então se escuta, pelo espaço afora,
Um clamor de clarins, e de tambores,
E de cavalos ardegos de guerra...


ORGULHE-SE DE CAXIAS



Uma cidade surpreende pela grandeza de seus filhos e de seus feitos

***
Veja. Em termos de origem (genealogia) territorial de municípios maranhenses, Caxias é "mãe" ou "avó"/"bisavó" de diversas cidades. Por exemplo: a área de Imperatriz saiu do território de Grajaú. Grajaú saiu de Pastos Bons, e Pastos Bons era distrito de Caxias. Portanto, Imperatriz é “filha” de Grajaú, “neta” de Pastos bons e “bisneta” de Caxias.

Além de muitos municípios, muita coisa e gente boa teve origem em Caxias. Veja.


A BANDEIRA - Todo brasileiro que vê a Bandeira Brasileira fique sabendo: foi um maranhense de Caxias, Raimundo Teixeira Mendes, o autor dela, apresentada ao Marechal Deodoro da Fonseca em 19 de novembro de 1889 (conhecido como o Dia da Bandeira).

OS VERSOS - Todo brasileiro que leia os versos “Minhas terra tem palmeiras / onde canta o sabiá” fique sabendo: o autor, Gonçalves Dias, nasceu em Caxias.

O DUQUE - Todo brasileiro que tenha ouvido falar do Duque de Caxias, o patrono do Exército Brasileiro, fique sabendo que foi a cidade caxiense que inspirou Luís Alves de Lima e Silva a escolhê-la para nome de seus títulos de nobreza (barão, duque).

MARAVILHOSA - Todo brasileiro que já ouviu a frase “Cidade Maravilhosa” ou cantou a música que a repete, referindo-se ao Rio de Janeiro, saiba que o autor dessas palavras é um maranhense de Caxias, o escritor Coelho Netto.

O GOL - Todo brasileiro que gosta da Seleção Canarinho, a equipe brasileira de futebol, saiba que foi João, o Preguinho, filho do caxiense Coelho Netto, o autor do primeiro gol do nosso time nacional em Copa do Mundo.

TORCIDA - Brasileiros e brasileiras que gostam de futebol, saibam que foi um caxiense -- Coelho Netto -- que "inventou" a palavra "torcida" com o significado de conjunto de simpatizantes, defensores, apoiadores e entusiastas de um clube de futebol ou outra agremiação esportiva.

A UNIVERSIDADE - Todo brasileiro também fique sabendo que foi um neto de família caxiense, Cândido Mendes de Almeida Filho, o fundador da mais antiga universidade privada existente no Brasil, a Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, de 1902.

AGRICULTURA - Todo brasileiro que sabe a importância de um Ministério da Agricultura para um país com as dimensões e o potencial do Brasil nesse setor da economia saiba que foi um caxiense, João Christino Cruz, quem criou esse Ministério.

TEATRO - Se o Teatro e a Dramaturgia negra brasileira têm um pioneiro, este é o caxiense Ubirajara Fidalgo.

SACERDOTISA - Uma das principais sacerdotisas de culto afro-brasileiro, estudada por antropólogos de diversos países, é a caxiense Mãe Andresa (Andresa Maria de Sousa Ramos), que viveu exatos cem anos, de 1854 a 1954.

ODONTOLOGIA - Se a profissão dos dentistas, a Odontologia, tem um nome que é considerado a “Glória da Odontologia Brasileira”, saibam todos que esse nome é o do odontólogo caxiense Aderson Ferro.

O JORNALISTA MAIS COMPLETO - Se houve um advogado e jornalista que redigiu a Lei do Ventre Livre, lutou contra a escravidão, advogava para os pobres gratuitamente, era um estudioso do Direito, um lutador das justas causas jurídicas e políticas e considerado o jornalista mais completo do Brasil, homenageado com seu nome em praça e seu rosto em busto próximo ao fórum de São Paulo (que tem o nome de seu filho), esse homem e esse nome é João Mendes de Almeida, maranhense de Caxias. A Ordem dos Advogados do Brasil de São paulo reeditou o conjunto das obras jurídicas desse caxiense, cujo filho, João Mendes de Almeida Júnior, outro talentoso jurista, dá nome ao maior fórum do país (São Paulo, SP).


Texto de EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br


domingo, 23 de novembro de 2014

Jagunço - poeta caxiense Vítor Gonçalves Neto



Jagunço

De olhar imóvel e unhas aguçadas
dentro da noite constelada e fria
Jagunço vira as latas e esvazia
baldes e caixas postos nas calçadas.

E a tiritar, a sós, nas madrugadas
relembra aflito a cínica ironia
daquela lata que encontrou vazia
em frente à casa rica dos Andradas.

Mas... certamente, este cachorro azado
vem trazer-me a lembrança do passado
junto a uma grande e lacerante dor,
pois, quantos corações não conquistei,
porém, aquele que em verdade amei
não possuia nem sequer amor.

Vítor Gonçalves Neto



* Nota de Quincas Vilaneto:
O poema é  original do poeta Vítor Gonçalves Neto, feito em Fortaleza, a 20 de maio de 1944, autografado, que levei bastante tempo para descobrir as palavras que faltavam, ei-lo.

Hino Oficial do Folclore Maranhense

Urro do Boi
(Coxinho)


"Lá vem meu boi urrando
subindo o vaquejadô
deu um urro na porteira
meu vaqueiro se espantou
e o gado da fazenda
com isso se levantô.

Urrou, urrou
Urrô,urro
Meu novilho brasileiro
Que a natureza criou.

Boa noite, meu povo
que vieram aqui me ver
com esta brincadeira
trazendo grande prazer
salve os grandes e pequenos
este é o meu dever
saí pra cantar boi
bonito pro povo ver
São João mandou, é pra mim fazer
é de minha obrigação
eu amostrar meu saber.

Urrou, urrou
urrou,urrou
meu novilho brasileiro
que a natureza criou.

Pra Jesus de Nazaré 
e a virgem da Conceição
viva o boi de Pindaré
com todo seu batalhão
São Pedro e São Marçal 
e meu senhor São João
viva as armas de guerra
viva o chefe da nação
viva a estrela do dia
São Cosme e São Damião.

Urrou, urrou
urrou,urrou
Meu novilho brasileiro
Que a natureza criou.

meu povo presta atenção
os poetas do Maranhão
que canta sem lê no livro
já tem em decoração
todo amo no mês de junho
temos por obrigação
de cantá toada nova
em louvo de São João
viva a bandeira brasileira
cobrindo a nossa nação.

Urrou, urrou
Urrou,urrou
Meu novilho brasileiro
Que a natureza criou.

sábado, 22 de novembro de 2014

Amor e Erotismo na musica de Roberto e Erasmo Carlos

 

"Pode ser na rua 
Pode ser na cama
O amor é lindo, 
e tudo é mais bonito
Quando a gente ama" 
(Quando A Gente Ama)

“Usar meus beijos como açoite
E a minha mão mais atrevida...
Vou me agarrar a seus cabelos
Pra não cair do seu galope
Vou atender aos meus apelos
Antes que o dia nos sufoque...” 
(Cavalgada)

“Eu tenho a mulher/Que eu quiser
Do jeito que ela /Veio ao mundo
Tanta beleza/Cabe em meus braços (..)
Jamais uma delas/Me amou
Nenhuma me disse até hoje
Se em mim reparou 
Alegorias/Minhas fantasias
No carnaval da minha solidão
Em algum momento
Eu fecho os olhos
E solto as asas da imaginação ...
(Fantasias)

"Não me deixam mentir os casais
Pelos cantos escuros das ruas 
E entre quatro paredes bem mais" 
(O Amor é a Moda )

“Em cena ela veste 
um avental de vento 
e pra mim tempera 
um prato que me espera
eu como, eu como, eu como”
(Minha Superestar)

"A aceleração é louca /quando beijo a sua boca
Me e dispara o coração/Nosso corpo se resvala
 sem controle pela sala/Que loucura que paixão (...) 
Nas esquinas dessa casa/Não tem leis e nem sinais
Vamos nós nesse carinho, /mas paramos no caminho
Dessa vez no corredor (...) 
E chegamos ofegantes ao destino dos amantes
Nosso quarto nosso amor" 
(Pelas Esquinas Da Nossa Casa)

"Na ânsia mais louca/ No céu da sua boca
No alto as estrelas me dizem, meu bem
Que a vida é isso/Que eu vivo por isso
Que você me dá, me dá/(...) E nós dois num abraço
Rolamos no espaço
Me perco no amor com você, meu bem
E perco o juízo/ Pois o paraíso
É o que você me dá, me dá
Tudo isso que você, meu bem, me dá" 
(Na Paz Do Seu Sorriso ) 

"Vem mais pra cá, chega pra mim
Quero sentir esse som de amor e ficar
Assim, na sintonia da emoção
De coração pra coração"
(De Coração Pra Coração)

"Esse perfume a cabeça me embaralha
De terno e gravata o que é que eu vou fazer (...) 
Me beija, me abraça e perfuma também minha roupa
E fica no ar que eu respiro e então não dá outra
(Cheirosa)

"Eu quase posso ver a água morna
A deslizar no corpo dela
Em gotas coloridas pela luz
Que vem do vidro da janela
Um jeito nos cabelos
Colocando seu perfume preferido
Diante do espelho aquilo tudo
Ela esconde num vestido" 
(Rotina)

Ás vezes chego até mesmo a sentir
O teu corpo em minhas mãos
E te ouço pedir pra fazer o que eu quiser
No prazer de te amar até cansar
Ás vezes acho que é só um sonho 
(Às Vezes Penso)

"Eu quero ser sua canção, eu quero ser seu tom
Me esfregar na sua boca, ser o seu batom
O sabonete que te alisa embaixo do chuveiro
A toalha que desliza no seu corpo inteiro
Eu quero ser seu travesseiro e ter a noite inteira
Pra te beijar durante o tempo que você dormir (...) 
Quero estar na maciez do toque dos seus dedos
E entrar na intimidade desses seus segredos
Quero ser a coisa boa, liberada ou proibida
Tudo em sua vida (...) 
E além de todo esse carinho que você me faz
Fico imaginando coisas, quero sempre mais (...)
Ele faz desse amor sua vida
A comida, a bebida, na justa medida
(Cama e Mesa)

"O sexo e o meu coração andam juntos
Só se alimentam de amor, comem juntos
Na hora do amor nosso amor sabe tudo
Tudo do bom e do melhor, não me iludo
Loucuras de amor quando a gente se abraça
Uma vontade que dá e não passa (...) 
Sexo ação mental não dá certo
Só um amor total é completo (...)
Ficar só pensando pra que" 
(Porque A Gente Se Ama)

"E embora eu já conheça bem os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado pelos seus carinhos
E só me encontro
Se me perco no seu corpo"
(Seu corpo)

"Dançando assim
Eu tenho você nos meus braços
E posso sentir seu corpo macio
Seu peito desse jeito
Apertado no meu peito
E o seu rosto colado no meu
Me convida a dizer
Coisas que as outras pessoas não devem saber" 
(Música Suave)

"Me beija, me abraça
Me assanha, me anima
Você é tudo pra mim
Me sobe um calor
Que seu corpo irradia
Mais quente que o sol
De verão meio-dia"
(No mesmo verão)

"Então você se chega mais e me abraça
Me beija e no seu beijo sinto tudo que é bom
Eu te pego e me entrego
E me esfrego todo no seu batom (...) 
Me acaricia, me provoca, me agita
Depois me olha com esse jeito e me faz
Chegar mais perto, eu chego perto demais" 
(Símbolo Sexual )


"Numa noite inesquecível
Controlar foi impossível tudo aquilo a sós"
(A Primeira Vez)

"E desarmado eu estava/Tudo que eu tinha lhe dei
Diante daquelas armas/Não resisti, me entreguei
E me entreguei no seu corpo/Me confessei no seu peito
Me amordacei na sua boca
Enlouqueci no seu leito (...) 
Que eu me calava na boca
Que me mordia a palavra"
(Procura-se)

"Quando a gente fecha a porta tanta coisa se transforma
Tudo é muito mais bonito nessa hora
Entre os beijos que trocamos pouco a pouco nós deixamos
Nossas roupas espalhadas pelo chão 
E é tão grande o amor que a gente faz 
Que em nosso quarto já não cabe mais 
E provoca inexplicáveis emoções (..)
Tudo pára quando a gente faz amor" 
(Tudo Pára)

"Braços que se abraçam
Bocas que murmuram
Palavras de amor
Enquanto se procuram
Chovia lá fora
E a capa pendurada assistia a tudo
Não dizia nada
E aquela blusa que você usava
Num canto qualquer
Tranquila esperava"
(Os seus botões)

"O ar que eu respiro/ No céu se mistura
Da boca ofegante/ Que a minha procura
Eu bebo nas fontes/De tantas delícias
Me perco em seus montes/Jardins e carícias
Na árvore plena/Nosso amor conhece
O gosto da fruta/Que a vida oferece
Nós somos a festa/E a dose atrevida
Brindemos agora/O amor e a vida" 
(O Gosto De Tudo)

"Nosso amor é assim, pra você e pra mim
Como manda a receita
Nossas curvas se acham, nossas formas se encaixam
Na medida perfeita
Esse amor é pra nós a loucura que traz
Esse sonho de paz e é bonito demais
Quando a gente se beija, se ama e se esquece
Da vida lá fora/ Cada parte de nós tem a forma ideal
Quando juntas estão, coincidência total/ Do côncavo e convexo
Assim é nosso amor, no sexo" 
(O Côncavo E O Convexo)

"No exato momento da nossa agonia/Pra se completar
Com seus beijos ardentes, tão doces, tão quentes
Vem me embriagar/No entanto sentida, no instante da briga
Chega a delirar/Entre bocas nervosas, com risos, com prosas (...) 
E rasgando essa vida da forma precisa
De amar e de se Ter (...) 
Quero que você me tenha até pelo avesso
Pra me sentir envolvido em seus cabelos
Faça de mim o que quiser
Eu sou seu homem, minha mulher"
(Pelo Avesso).

"Amanhã de manhã/ Vou pedir o café pra nós dois 
Te fazer um carinho e depois/ Te envolver em meus braços
E em meus abraços/ Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar/ E te amar na manhã 
Amanhã de manhã/ Nossa chama outra vez tão acesa 
E o café esfriando na mesa/ Esquecemos de tudo (...) 
Pensando bem/ Amanhã eu nem vou trabalhar
Além do mais/ Temos tantas razões pra ficar..." 
(Café Da Manhã)

“Se alguém tocar seu corpo como eu
Não diga nada
Não vá dizer meu nome sem querer
À pessoa errada”
(Detalhes)

“esse amor sem preconceito
sem saber o que é direito
faz a suas próprias leis
que flutua no meu leito
que explode no meu peito
e supera o que já fez
(Amada Amante)

Para refletir ...



Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.


Clarice Lispector

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

19 de novembro, Dia da Bandeira do Brasil. E o que Maranhão e Caxias tem a ver com isso?


Quem olha para ela, está olhando para o Maranhão, pois foi um maranhense de Caxias quem a criou. Depois que a República foi proclamada, em 15 de novembro de 1889, a bandeira que o país adotou foi uma cópia da bandeira dos Estados Unidos. Aí, quatro dias depois, em 19 de novembro, o caxiense Teixeira Mendes, filósofo e matemático, sugeriu -- e teve aprovada -- a bandeira que, desde aquela data, nos emociona e nos orgulha. Leia a seguir um pouco mais sobre o assunto. 

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O QUE CAXIAS TEM A VER COM A BANDEIRA BRASILEIRA

19 de novembro é o Dia da Bandeira brasileira. Dentre todos os Estados da Federação, o Maranhão teria mais motivo para lembrar a data. Dentre todos os mais de 5 mil municípios, Caxias seria aquele que mais razão teria de lembrar a data. Afinal, foi um maranhense, um caxiense, Raimundo Teixeira Mendes, o autor do principal símbolo da nacionalidade. A Bandeira é o hino em tecido.

Teixeira Mendes nasceu em Caxias (MA), em 05 de janeiro de 1855 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1927. (A propósito, vale registrar: Teixeira Mendes, ao final de cada texto seu, assinava "R. Teixeira Mendes"; depois, com pequenas variações, escrevia: "Nascido a 5 de janeiro de 1855, em Caxias, Maranhão. Em praticamente todos os artigos o ilustre caxiense fazia questão de dizer que era nosso conterrâneo).

Teixeira Mendes era filósofo e matemático. Escreveu diversas obras, inclusive "A Bandeira Nacional" e "O Ano Sem Par", este com mais de mil páginas, lançada em dezembro de 1900. Tenho raro exemplar de cada uma dessas obras.

Quando ocorreu a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a bandeira que os republicanos adotaram era uma cópia -- "cópia servil", adjetivou Miguel Lemos, filósofo e cunhado de Teixeira Mendes - da bandeira dos Estados Unidos pintada de verde e amarelo. Aí, Teixeira Mendes entrou na -- e para a -- História e, quatro dias depois, em 19 de novembro de 1889, apresentou o projeto da bandeira que concebera para o Brasil. O desenho foi logo adotado.

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A BANDEIRA BRASILEIRA 



Desde 1889, quando foi proclamada a República, a bandeira que estamos vendo agora é a mesma que vem presidindo e testemunhando, do mais alto ponto, o correr dos acontecimentos em nosso território.

Cada símbolo nacional tem a sua função, o seu valor. Mas nem o selo, nem o sinete, nem mesmo o brasão das armas nacionais têm estado tão presente nos olhos e na alma do povo brasileiro quanto a sua bandeira.

A bandeira é o hino em tecido: basta vê-la nos grandes momentos para sentirmos aquela mesma comoção sadia, a mesma emoção positiva de orgulho cívico, de cidadania gloriosa. É assim ao vibrarmos com o esportista vitorioso que empunha, mesmo sem mastro, o quadrilátero verde-amarelo. É assim ao nos comovermos com a bandeira enorme sob a qual desfilam anônimas pessoas do povo nas passeatas. É assim quando a vemos empunhada por braços firmes e passadas fortes dos estudantes e dos soldados nos desfiles de 7 de setembro.

A Bandeira Brasileira não deve ser um objeto com datas certas para acontecer, aparecer. Ela deve estar mais presente no dia-a-dia. Na Capital do País, Brasília, pessoas da iniciativa privada mantêm um movimento cívico para ter-se e manter-se a Bandeira Brasileira frente aos prédios de suas empresas. Não se trata de ufanismo piegas, mas de orgulho de ser cidadão e de pertencer a esta Nação.

A Bandeira é isso: aquela que se eleva no simbolismo da luta; aquela que se declina no momento de luto.

Seja no calor da batalha ou na frieza da mortalha, a bandeira, a meio mastro ou no alto, ensina que não nos devemos baixar, derrotados ou derrotistas. Devemos, sim, abrir os olhos e firmar a visão, num gesto de determinação e de superação que “aos fortes e aos bravos só pode exaltar”.

E pelo pouco tempo de existência de nosso País, ter conseguido o destaque que nós temos no concerto das nações significa que esta também é uma terra de bravos.

Viva a bandeira brasileira! Tenha-a sempre à mão. Agite-a: ela espanta os insetos da anticidadania. Use-a: ela é um tônico contra a falta — ou a fraqueza — de civismo.

Que a mensagem de “Ordem e Progresso” de nossa Bandeira continue a balizar o caminho pelo qual todos nós, governantes governados, empregadores e empregados, deveremos trilhar. Que a ordem, aqui, signifique não só disciplina e disposição, mas também boa administração das coisas e das causas públicas. E que o progresso seja, por sua vez, sinônimo de justiça social.

Que as cores da bandeira adquira outros tons. Que o verde, além do simbolismo das matas, seja o da esperança realizadora daqueles que não se acomodam. Que o amarelo não represente apenas a fartura do nosso ouro, mas a riqueza da cultura do nosso povo. Que o azul não se limite ao limite das nossas vistas, que é o céu; mas se amplie por uma visão além dele, que é o espírito.

E o branco, que este não simbolize apenas a paz que é a ausência de guerra, mas a paz de consciência ante as muitas guerras que temos de vencer para reabilitar a maior parte do nosso povo e fortalecer, assim, a própria cidadania, a própria nacionalidade, o próprio País.




Por EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br

UBIRAJARA FIDALGO, CAXIENSE, O PRIMEIRO DRAMATURGO NEGRO DO BRASIL



Nascido no povoado São Pedro, distrito de Caxias, em 22 de julho de 1949, Ubirajara Fidalgo da Silva faleceu em 03 de julho de 1986, no Rio de Janeiro, após operação nos rins -- portanto, ainda não completara 37 anos. Teve uma vida curta, mas que grande vida ele teve!

Casou-se em 28 de janeiro de 1974 com Alzira Fidalgo, cenógrafa, figurinista e produtora, que faleceu em 2011. Sua filha, Sabrina Fidalgo, é cineasta e é quem cuida do legado dos pais. O “site” “Brasileiros na Alemanha” registra ser Sabrina muito conhecida naquele país.


Ubirajara Fidalgo foi ator, dramaturgo, produtor, empresário, apresentador de TV, diretor de teatro. De 1984 a 1986, com Edna Savaget, apresentou o programa “Ela”, na TV Bandeirantes. Foi o primeiro a ensinar e a incluir e empregar profissionalmente no teatro negros da periferia. Também foi o primeiro a levar o debate político-social aos palcos com participação e interatividade da plateia. No dia 20 de fevereiro deste ano, a vida e obra de Ubirajara fidalgo foram homenageadas no Teatro Arena, em São Paulo (SP), com exposição de fotos e vídeos e leitura de texto da peça teatral “Tuti”, a última escrita por Ubirajara (que também deixou textos inéditos e um livro não terminado).

Saindo de Caxias, em 1968 Ubirajara Fidalgo já estava em São Luís (MA), onde iniciou sua carreira artística, primeiro em curso de iniciação teatral, com o professor Jesus Chediak, depois na Universidade federal do Maranhão, no curso de Formação de Atores. Em 1970, mudou de cidade mas não mudou o curso de sua vida, isto é, o Teatro: continuou sua formação na Universidade do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano encena “Otelo”, de Shakespeare, e dá início ao Teatro Profissional do Negro, o TEPRON.

Simultaneamente com suas atividades artísticas, desenvolve intensa militância no ativismo negro do país. Debate a situação do negro, o preconceito racial, a situação social. Seja no Clube Renascença , centro de mobilização do negro; nos Centros Populares de cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes); na fundação do Instituto de Pesquisa da cultura negra; na Associação Cultural de Apoio às Artes Negras..., em qualquer lugar em que a arte e a vida da população negra estivesse em debate, ali estava Ubirajara Fidalgo.

Vítima de acidente de automóvel na infância, Ubirajara levou para o resto da vida um problema nos rins. Fez transplante. Mas não houve jeito. Na primeira semana de julho de 1986 morria aquele que “foi uma das grandes figuras emblemáticas do Movimento Negro no Brasil nas décadas de 1970 e 1980”, aquele considerado “um dos principais articuladores do Instituto de Pesquisa e Cultura Negra (IPCN), criado em 1975 com o objetivo de combater o racismo, o preconceito e a discriminação racial”, o “fundador do Teatro Profissional do Negro (TEPRON)”, que “aliou a montagem de seus textos teatrais às questões relevantes relacionadas ao racismo, a discriminação no Brasil contemporâneo, o preconceito, a homofobia, a misoginia, desigualdade social e a ditadura militar”.

Um caxiense de talento. Um caxiense de coragem cívico-artístico-social.


Fonte: Edmilson Sanches, poeta , jornalista e escritor caxiense
edmilsonsanches@uol.com.br

QUEM CRIOU AS EXPRESSÕES “TORCIDA E TORCEDOR” FOI O POETA E ESCRITOR CAXIENSE COELHO NETO


Um dos maiores cronista e jornalista esportivo brasileiro, Luiz Mendes, em entrevista a Associação Brasileira de Imprensa, disse que a criação das expressões “torcida e torcedor” originou-se do grande escritor caxiense Coelho Neto, torcedor apaixonado pelo Fluminense, figura obrigatória nos gramados:

"No começo do futebol, ir ao estádio era um ato de elegância, principalmente, no Fluminense. Por isso o Fluminense até hoje tem essa fama de clube aristocrático. As mulheres se enfeitavam como se fosse ao Grande Prêmio Brasil, colocavam vestidos de alta costura, chapéus, luvas. Mesmo que a temperatura na cidade estivesse por volta dos 40º de temperatura, elas iam de luvas. Como o calor era muito grande, elas tiravam as luvas e ficavam com as luvas nas mãos, e como ficavam nervosas com o jogo, elas as torciam ansiosamente. Os homens usavam a palheta, um chapéu de palha muito comum na época, muito elegante e também ficavam com o chapéu na mão enquanto torciam.

O Coelho Neto, que além de poeta e cronista era pai de dois jogadores do Fluminense: o Preguinho, que foi o primeiro homem a fazer um gol pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, e do Mano, que morreu em consequência de um jogo de futebol, levou uma bolada e acabou morrendo; pois o Coelho Neto escreveu uma crônica em que ele usava a expressão “as torcedoras”, referindo-se às mulheres e dali a expressão pegou e nasceu a torcida.

Havia quem dissesse que torcida vinha do fato de as pessoas torcerem os fatos, de o torcedor torcer os fatos a favor de seu clube, mas não foi daí que o termo veio não. Apesar de que quem torce, realmente torce as coisas e até distorce. Mas, na verdade, não foi por isso, foi mesmo pelo gesto das moças, principalmente, das que torciam as luvas entre as mãos".


O escultor caxiense, Celso Antônio Silveira de Menezes



Justiça para um grande artista
Como simples testemunha do meu tempo, considero um absurdo que até hoje, final de 1989, um artista do valor e da importância de CELSO ANTÔNIO não tenha tido ainda o reconhecimento que merece. É sabido que a morte impõe um período de silêncio, como se entre a posteridade e o morto ilustre fosse necessário fazer uma reflexão para reavaliar o que significou de fato a sua contribuição para a cultura nacional.
Quem quer que tenha interesse pelas artes e pelas letras no Brasil sabe a importância de CELSO ANTÔNIO. Nem é preciso ter sido seu contemporâneo, ou ter acompanhado, mesmo à distância, o itinerário que o artista percorreu. Não lhe faltou sequer o sal da grande controvérsia, quando sua arte foi vítima da incompreensão e da burrice.
CELSO ANTÔNIO, tendo vivido e trabalhado num momento de renovação cultural em todas as frentes, foi um grande artista inovador. Com um temperamento discreto, alheio ao marketing das celebridades de 15 minutos, o grande artista teve ao seu lado as melhores inteligências e sensibilidades de seu tempo. Bastaria citar três grandes nomes, entre seus fervorosos admiradores : Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade.
Tudo que se fizer em favor de CELSO ANTÔNIO, a partir de agora, é justo e oportuno. Chega tarde, mas ainda chega a tempo de saldar uma dívida que o Brasil tem para com esse extraordinário artista, que conheci, admirei e defendi, quando foi vítima da agressiva estupidez dos que se trancam na rotina e no ar viciado do pior academicismo.
Otto Lara Resende
Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1989

UM GÊNIO ESQUECIDO - CELSO ANTONIO E O MODERNISMO


Por  Eliézer Moreira Filho

Celso Antonio Silveira de Menezes, nasceu na cidade de Caxias, no Maranhão, em 1896. Perdeu a mãe aos quatro anos de idade, quando passou a viver com o pai e a avó. Com a mudança de residência do pai, o acompanhou à cidade de Belém do Pará. Ali, não tendo como desenvolver seu talento, emigra só e temerariamente para o Rio de Janeiro, cidade onde não possui parentes nem amigos mais chegados. Passa dificuldades, dorme em bancos de praça. 

Apresenta-se ao seu conterrâneo Coelho Neto com uma modelagem da cabeça de Eça de Queiroz. Duvidando que o jovem conterrâneo tivesse o domínio escultural expressado naquela amostra, para experimentá-lo, encomenda-lhe o busto de Camilo Castelo Branco e o resultado é tão surpreendente, que manda reproduzi-lo em bronze e o mantém sobre sua mesa.

A partir daí, o jovem escultor encontra um amigo que o recomendará e o ajudará durante sua vida artística. Logo consegue do Governador Urbano Santos, do Maranhão, uma bolsa de aperfeiçoamento que lhe dá ensejo de viver e dedicar-se a escultura com mais tranquilidade. 

Na sua permanência na Capital da República frequenta o curso livre de escultura da Escola Nacional de Belas Artes e participa de seus concursos, sendo agraciado com uma Medalha de Ouro, por sua obra intitulada APrimeira Lágrima. Frequenta, por pouco tempo, o ateliê de escultura de Rodolfo Bernardelli. Já com alguma projeção na imprensa, faz repetidas viagens ao Maranhão, quando produz várias esculturas de vultos maranhenses, como Antonio Lobo, Urbano Santos, Aluísio Azevedo, Arthur Azevedo, entre outros. Recebe, na capital maranhense, durante suas sucessivas viagens, copiosos elogios de jornalistas e intelectuais da cidade, como Antonio Lopes, Domingos Barbosa, Reis Perdigão, entre outros. Casa-se no Rio, em 1921, com Leonor Tommasi, união que perdurará por quatorze anos.

Capítulo II – Fase Parisiense

Instado por escritores maranhenses de prestígio nacional, o Governador Godofredo Viana, do Maranhão, concede-lhe uma Bolsa de Estudos para a França. Embarca para Paris, acompanhado da esposa em 1923. Lá integra um circulo de intelectuais e artistas brasileiros, como Di Cavalcanti, Villa-Lobos, Anita Malfatti, Brecheret, Tarsila do Amaral, entre outros. Freqüenta a Academia de La Grande Chaumiére, onde se aperfeiçoa. É descoberto por Emile Antoine Bourdelle, consagrado escultor francês, então no auge da fama de renovador da escultura moderna. Como assistente de Bourdelle, Celso Antonio participa de várias obras na Europa, e seu nome obtém reputação. Corresponde-se com amigos intelectuais brasileiros, como Coelho Neto, Dante Milano, Conde Affonso Celso, Ribeiro da Costa. Em Paris, nasce-lhe a filha Sandra.

Capítulo III – Retorno ao Brasil

Alegando contingenciamento de despesas o Governador do Maranhão, Magalhães de Almeida, cancela a bolsa anteriormente conferida pelo Governador Godofredo Viana. Sem condições de manter-se na França, retorna Celso Antonio ao Brasil em 1926, antecedido de amplo noticiário na imprensa dando conta de seu valor. Trás uma carta de Bourdelle na qual o pai da escultura moderna faz-lhe consideráveis elogios. Fixa-se temporariamente no Rio de Janeiro, quando esculpe o busto do amigo Graça Aranha.

Capítulo IV – Fase Paulista

Recomendado por Di Cavalcanti, seu amigo de Paris, transfere residência para São Paulo e confecciona o Monumento do Café. Tal monumento é solenemente inaugurado em Campinas, quando das celebrações do transcurso de duzentos anos da introdução do café na economia de São Paulo (1727 – 1927). 

Daí vê-se conhecido e recebe encomendas de importantes figuras do mundo paulista. Confecciona o belo monumento tumular de Lydia Piza de Rangel Moreira, do 12º Presidente do Estado de São Paulo, Carlos de Campos, e da família Isola no Cemitério da Consolação, na capital paulista. 

Hoje, tais monumentos estão tombados pelo Serviço de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Relaciona-se com líderes modernistas, entre os quais, Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Warchavchick, Graça Aranha, Manuel Bandeira, Anísio Teixeira. Para se entender a importância dos modernistas na vida artística e intelectual do país, o Ensaio procede a uma ampla caminhada pelo entorno do movimento em São Paulo, berço do modernismo brasileiro.

Capítulo V – Fase Nacional

(...) 

Anos mais tarde, sensível à importância que Celso Antonio adquirira no julgamento dos intelectuais (Drumond, JB, agosto de 1984), coube ao Ministro Capanema chamá-lo para fazer as esculturas que adornaram boa parte do Ministério. Foi um momento de consagração, ao participar do histórico grupo de genialidades envolvido na construção do Ministério da Educação e Saúde Pública: ele mesmo, Le Corbusier, Lúcio Costa, Portinari, Oscar Niemeyer, Bruno Georgi, Liptischitz, Adriana Janacópulos, Carlos Drumond de Andrade, Roberto Burle Marx, o próprio Ministro Gustavo Capanema, dentre outros. 

A sede do Ministério expressou um paradoxo: foi a representação formal e espacial de um sistema de valores democráticos no seio de uma ditadura. Capanema teve carta branca de Getúlio Vargas. Assim, fez sua própria revolução no mundo cultural da época. Nomeou artistas e intelectuais das mais diversas ideologias e manteve-se ao largo da arquitetura oficial estadonovista. Algum dia se explicará a razão do prestígio de Capanema junto ao Presidente Vargas. 

A concepção arquitetônica do Ministério da Educação e Saúde Publica foi inicialmente muito criticada. Denominaram-na de Capanema-Maru, numa alusão aos navios que traziam os imigrantes orientais, até que o arquiteto-chefe do Museum of Modern Art of New York, Philip Goodwin, visitou o Brasil a frente de um grupo de arquitetos ingleses e americanos e considerou o prédio do Ministério como o mais avançado das Américas. Os jornais que o criticavam passaram a chamar o edifício de “obra notável da moderna arte brasileira”. 


Capítulo VI – Estátua do Trabalhador

Trabalhador mulato, forte, lábios grandes, sem camisa, avental de lona


O Ministro Honório Monteiro, do Trabalho, no governo Eurico Dutra, encomendou-lhe uma estátua a ser entronizada em frente do Ministério do Trabalho, no dia do trabalhador. Celso Antonio viu a oportunidade para expressar suas idéias e conceitos sobre a arte moderna. Traduziu na representação do homem brasileiro o seu trabalhador. Ao contrário do gosto das pessoas de então, cujo senso estético exigia uma representação idealizada e helenística da figura humana, Celso adotou, em oposto, a realidade do biotipo brasileiro. 

Seu trabalhador, que gerou uma considerável controvérsia, é representado por uma figura de três metros de altura, em pedra, atarracada e compacta, monolítica, despida das sinuosidades e da leveza do ideal grego, distante dos cânones clássicos. O resultado: uma figura típica do modernismo que na pintura consagrou Portinari, Di Cavalcanti e outros. A estátua foi simbolicamente inaugurada na Av. Presidente Antonio Carlos em frente ao prédio do Ministério do Trabalho, no centro do Rio, em 1950, com a presença do Presidente da República, Eurico Dutra, que ao vê-la externou seu veredicto: não gostei. Pouco depois ela era retirada do seu pedestal e desterrada para um depósito. 

A imprensa desancou a obra, seu autor, o ministro e o governo que a inaugurou, apesar da veemente reação em contrário de ilustres figuras ligadas às artes, especialmente intelectuais paulistas. Confinada a um terreno cercado de tapumes a estátua hibernou por longo tempo, surrupiada aos olhares humanos. Enfim, atendendo ao apelo da comunidade do Barreto, em Niterói, a municipalidade a resgatou, a limpou e a assentou defronte da Escola Monteiro Lobato. 

Para Celso Antonio a arte moderna não deve procurar o rebuscamento, a sinuosidade ou a literatice das figuras, o que ele designa por dinamismo. O artista trata de fixá-las como realmente são no momento da criação. E lhes dá personalidade, gerando nelas uma identidade. O trabalhador, ele o fixou como realmente o conhecia. Até hoje se discute se o artista deve reproduzir a realidade como ela é ou se deve buscar a idealização da natureza, como propugnava Platão. Atreveu-se Celso Antonio a confrontar tais medidas estéticas herdadas de culturas exógenas. Ele não se apegou à figura ideal, e sim à realidade como a via. 

Sua intransigência na defesa de seus conceitos não permitia que ele se dobrasse ou transigisse com suas ideias. A cultura universal reconhece hoje os conceitos da arte americana, e nesta a mexicana, a sul-americana e também a asiática, a africana e a da Oceania, que cultuam essências estéticas e culturais muito próprias e nada têm em comum com as obras clássicas.


Capítulo VII – Declínio e Obscuridade

Carlos Drummond de Andrade, no necrológio publicado no Jornal do Brasil, de 31/05/1984, quando do falecimento de Celso Antonio, noticiou, após tecer longo comentário acerca da vida e obra do escultor maranhense: Falecido no último sábado, Celso Antonio merece ser redescoberto e analisado criticamente como uma das expressões mais fortes da escultura brasileira. É o que tento fazer com este Ensaio. 

Após o acontecimento com a Estátua do Trabalhador, Celso Antonio recolheu-se à vida doméstica, prosseguindo seu trabalho artístico em pequenas esculturas, desenhos a guache e aquarela. Oscar Niemeyer, ouvido sobre esta singular figura, assim se expressou: Conheci Celso Antonio no tempo de Capanema, durante a construção do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde. Apreciava suas intransigências de artista, tão honestas e radicais que, acreditamos, influíram nos problemas de trabalho que nos últimos anos o envolveram.

As intransigências do artista eram as intransigências que preservavam a natureza de sua obra, sempre austeramente autênticas com o caráter do seu estilo, sem condescender com os modismos da época, com a vontade dos mecenas quando contrariava seus dogmas, nem com as pressões de intelectóides passageiros. 

Celso Antonio teve no opúsculo da vida a companhia de Dirce Barros e dos filhos desta. O filho, de nome Alexandre Peri Barros. cuida com muita atenção e carinho do espólio artístico de quem ele chama de avô. Um ano antes de sua morte foi procurado pelos representantes do Projeto Portinari – Depoimentos, quando escreveu de próprio punho um depoimento a respeito de Portinari, que está transcrito no Ensaio. O Clube da Medalha, da Casa da Moeda do Brasil, o procurou para esculpir uma medalha comemorativa da escultura brasileira. O que fez, com a efígie da Estátua do Trabalhador.

O Maranhão esqueceu-se dele. Foi resgatado na década de 90, pelo livro Arte do Maranhão 1940 – 1990, editado pelo Banco do Estado do Maranhão, hoje extinto. Já agora, no século 21, foi publicado um ensaio de autoria de Francisca Flames de Lima, intitulado A Temática Feminina na Obra Escultórica de Celso Antonio de Menezes, que procura resgatar a memória de tão insigne figura artística.

***************
Texto de autoria do escritor maranhense Eliézer Moreira Filho.  Autor dos livros "Memórias de Meu Tempo" e "Histórias Que Os Jornais Não Contaram" e também "Um Gênio Esquecido - Celso Antonio e o Modernismo"
Disponível http://eliezermoreirafilho.blogspot.com.br/2012

Caminhos de Sol – Herman Torres / Salgado Maranhão



Sem você a vida pode parecer
Um porto além de mim
Coração sangrando
Caminhos de sol no fim

Nada resta mas o fruto que se tem
É o bastante pra querer
Um minuto além
Do que eu possa andar com você

Te amo e o tempo não varreu isso de mim
Por isso estou partido
E tão forte assim

O amor fez parte
De tudo que nos guiou
Na inocência cega
No risco das palavras e até no risco da palavra Amor

Nada resta mas o fruto que se tem
É o bastante pra querer
Um minuto além
Do que eu possa andar com você

Te amo e o tempo não varreu isso de mim
Por isso estou partido
E tão forte assim

O amor fez parte
De tudo que nos guiou
Na inocência cega
No risco das palavras e até no risco da palavra Amor

O amor fez parte
De tudo que nos guiou
Na inocência cega
No risco das palavras 
e até no risco da palavra Amor



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Novo poema - Poeta caxiense Quincas Vilaneto



O poema me espreita
arde sobre a mesa
com suas letras empilhadas
como se fossem uma presa
que o vento fareja
depois da queixa.

O poema cava
palavras em mim
até obtê-las
em troca do que teço
bebido pela boca
que o receita.

O poema dorme em minhas pálpebras
têm gosto de metáforas
cheiro de jasmim.
De manhã ele vira tudo
até florescer em mim.

Do Incontido Orgulho de ser Caxiense - Edmilson Sanches


Pôr do Sol no Morro do Alecrim

(...) Agora, a carne se faz verbo. Somos carne que fala.

Assim, devo falar sobre Ricardo Leão Sabino, o patrono da Cadeira 36, para a qual, em votação e eleição, me conduziram meus confrades deste Instituto, por razões que a minha razão desconhece mas a minha gratidão reconhece. Obrigado, Confrades. 

Quem era, quem foi Ricardo Leão Sabino e que papel na História lhe coube desempenhar e como o desempenhou, a ponto de, em sua homenagem, seu nome ter sido escolhido como patrono da cátedra que ora assumo no Instituto Histórico e Geográfico de Caxias? 

No pouco tempo que me coube para pesquisar e tirar Ricardo Leão Sabino da relativa obscuridade dos espíritos pude confirmar: eu estava diante de uma pessoa fascinante, uma personalidade contraditória, uma personagem em busca de muitas histórias. 

Para começo de conversa, diga-se logo que Ricardo Leão Sabino foi professor de Gonçalves Dias, quando este tinha de doze para treze anos de idade e até perto dos quinze, aqui em Caxias. 

Ricardo Leão Sabino foi herói da Balaiada, em Caxias; foi amigo do Duque de Caxias e o acompanhou como militar em diversas guerras em diversos lugares; foi espadachim; foi cirurgião-dentista da Casa Imperial; foi titular de cartório, em São Paulo; criador de um comércio de peixe enlatado para exportação, em Santa Catarina; dono de um negócio de transporte de passageiros, movido a um trole e alguns animais, entre Paranaguá e Curitiba; foi fabricante de bonecos, em São Paulo; proprietário de um teatrinho para crianças na capital paulista e no Rio de Janeiro; foi pintor, desenhista, estatuário, músico, aventureiro, filósofo, arquiteto, carpinteiro, professor; escritor de diversos textos em jornais e autor de um só livro publicado. 

Ao lado da variedade de negócios e atividades que exerceu, uma característica quase única: insucesso nos negócios e indevido reconhecimento nas atividades ligadas à oficialidade, ao Império -- como os postos e pensões militares que lhe negaram e os cartórios dos quais era serventuário, que não funcionaram. 

Senhoras e Senhores: 

Todos têm história. Poucos a contam. 

Aqueles 16 fantasmas que caberiam a cada um de nós viventes têm muito mais faces, como as diversas de Ricardo Leão Sabino, posto que a geometria da vida vai tornando-nos, em diversos casos, seres múltiplos e vários. Cada um tornamo-nos uma espécie de hexadecaedro: um único ser, mas com 16 rostos. 

A face histórica de Ricardo Leão Sabino começa a se antever a partir de sua ascendência, com seu pai, Joaquim José, e deixa-se perenizar com sua descendência, como, por exemplo, seu filho Horácio. 

Enviei correspondência para escritora de São Paulo que conhece, na capital paulista, familiares descendentes de Ricardo Leão Sabino. Como ainda não obtive resposta, fica para outra oportunidade uma resenha biográfica com aspectos mais particularizados sobre ele. 

De qualquer modo, as pesquisas que fiz me levaram a livros e autores desde as “Memórias” do Visconde de Taunay, o clássico “A Vida de Gonçalves Dias”, de 1943 (70 anos de lançamento, portanto, em 2013), escrito por Lúcia Miguel Pereira, até o depoimento do próprio Ricardo Leão Sabino, feito a Rodrigo Octávio Filho, que o registrou no pequeno livro intitulado “A Balaiada 1839”, passando por obras mais recentes, como “Elos de Uma Corrente, Seguidos de Novos Elos”, de 1994, escrito por Laura Oliveira Rodrigo Octávio, neta de Ricardo Leão Sabino e casada com Rodrigo Octávio Filho, e “Horácio Sabino: Urbanização e Histórias de São Paulo”, de 2008, livro de arte organizado por Carolina Andrade. 

Assim, desse Ricardo Leão Sabino poliédrico, versátil, multifuncional, juntando os registros dispersos aqui e acolá, pode-se dizer, com segurança: 

Ricardo Leão Sabino nasceu em São Luís, Maranhão, em 11 de abril de 1814. Há autores que dizem ser ele caxiense. Foi batizado duas semanas e meia depois, em 28 de abril de 1814. Era filho do desembargador Joaquim José Sabino de Resende Faria e Silva, português designado para prestar serviços no Maranhão, e de dona Josepha Adelaide Belfort, filha do engenheiro inglês e “lord” Philip Belfort e dona Adelaide Mattos. 

Como se vê ou se lê ou se ouve, o futuro professor do caxiense Antônio Gonçalves Dias era para se chamar, salvo melhor juízo, Ricardo Belfort Faria e Silva. Só que bem antes de seu nascimento o pai, desembargador, tendo de assinar repetidamente montanhas de papeis tão longo nome -- Joaquim José Sabino de Resende Faria e Silva –, cortou-o ao meio e como Joaquim José Sabino foi que transmitiu o patronímico aos filhos e demais descendentes. 

Sendo português seu pai, e tendo a família as devidas condições financeiras, Ricardo Leão Sabino foi mandado a Portugal, para estudar curso jurídico -- que ele não fez ou não terminou -- em Coimbra. 

Aos 18 anos, encontrando-se em Porto, onde agora estudava, casou-se com a portuguesa Maria do Belém Correa, e ali mesmo em Porto alistou-se ao lado das tropas de dom Pedro 4º (no Brasil, dom Pedro 1º), que abdicara do Império brasileiro e lutava contra o próprio irmão, dom Miguel, considerado usurpador do reino de Portugal. Foi a chamada Guerra Civil Portuguesa. 

Inteligente, entusiasmado, bom espadachim, saiu-se bem o maranhense nas diversas batalhas em diversas cidades portuguesas, participando de cercos, lutas e tomadas de localidades. 

Afinal, em 1834, vencem as tropas de dom Pedro a Guerra Civil Portuguesa. Ricardo Sabino está lá, na condição de vencedor, na capitulação assinada por dom Miguel na freguesia de Évora-Monte. 

Ricardo retorna ao Brasil, ao Maranhão, trazendo mulher, com quem veio a ter uma filha. Mais tarde ficará viúvo pelo menos duas vezes e se casará uma terceira vez e terá muitos filhos. 

Não há registro do por que Ricardo Leão Sabino veio para Caxias, após deixar Portugal, filho de São Luís que era e com pai influente na capital. Foi a convite de amigos ou será se a Caxias da época o atraíra, pois que era tida como lugar progressista? 

O certo é que foi aqui em Caxias que ele montou um curso onde ensinava Francês, Latim e Filosofia, e é neste espaço e tempo, em 1835, que sua vida interage decisivamente com a do sabido menino Antônio Gonçalves Dias, que se afastou do balcão do comércio que o pai João Manuel mantinha ali na esquina da Rua Benedito Leite (ou rua do Cisco) com a rua do Norte. 

Não tardou para o professor Ricardo Leão perceber o talento do futuro poeta, dramaturgo, etnógrafo etc. e desde logo tornar-se seu entusiasmado defensor, a ponto de pedir dinheiro à madrasta do rapazola, dona Adelaide, e também a amigos em cotização para enviar o jovem a Coimbra e ali mantê-lo, onde melhor seu talento pudesse expandir-se. 

Sempre um homem resoluto, Ricardo Leão Sabino ficou sabendo da vontade de um ferreiro português de voltar ao país natal. Era Bernardo de Castro e Silva, inquilino da madrasta de Gonçalves Dias, que lhe alugara um pequeno cômodo, “um puxadinho”, ali de junto da casa da família da agora viúva dona Adelaide. 

Não contou conversa Ricardo Sabino. Como um leão, juntou o ferreiro e um Gonçalves Dias ainda com 15 anos incompletos, e no dia 13 de maio de 1838 saíram de Caxias em uma canoa rumo a São Luís, numa época em que a capital maranhense era a quarta maior cidade do Império e o Itapecuru não era essa vereda, esse fiapo de água de hoje, esse atestado de falência líquido e incerto da racionalidade humana, mas um verdadeiro rio de 45 metros de largura, caudaloso, piscoso, navegável. Hoje, o rio Itapecuru, igual a tantos outros, dá mais histórias do que peixe... 

Em outubro de 1838, já com 15 anos completos, Gonçalves Dias chegava à Europa portuguesa. A história maior do menino começava ali, enquanto a vida de seu esforçado professor mantinha-se aqui. 

Naquele mesmo ano de 1838 iniciava-se a revolta da Balaiada. Ricardo Leão Sabino deixava a fala pela bala, a sala pelo campo, os alunos pelos soldados. Naquela hora, a cidade de Caxias precisava menos do denodado professor e mais, muito mais, do experiente militar, que lutara e ganhara tantas lutas em terras de Portugal. Era o único com tal e tamanho currículo. 

O episódio do estratagema da flauta, com o qual botou a correr os balaios, valeu-lhe ecos de admiração e patente de capitão. Admiração da província e patente do Exército, além do hábito de Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro e uma pensão mensal em dinheiro. 

Essa ardilosa manobra contra os balaios deu-se porque, entre tantas coisas que era, Sabino também era músico, professor de flauta e rabeca. Suas tropas estavam ali ao lado da Igreja de São Benedito (igreja de cujo sistema de som ouvi, em finais de setembro de 1978, o padre Mendes anunciar o falecimento do papa João Paulo 1º, anúncio seguido de exclamação de surpresa de minha professora e vizinha de quintal, Tia Filozinha). 

Sentindo que suas tropas não poderiam resistir mais ao cerco balaio, Ricardo Leão engendrou o artifício de dirigir-se aos revoltosos, aparentando passar para o lado deles; disse-lhes algumas palavras, chamou os balaios para mais perto de si e, com a flauta, tocou o Hino Nacional, ao qual, como se fosse senha ou sinal, logo se sucederam disparos à queima-roupa contra os revoltosos e tiro de canhão, que mataram muitos balaios e provocaram pânico e correria, tal o estrondo e o estrago feitos e o medo de que atrás daquele tiro de canhão viessem outros -- mas não vieram: era aquele o último recurso do façanhudo Ricardo Leão Sabino, que depois foi justamente chamado de “herói da Balaiada”. 

Como se vê, a situação era séria, mas pode-se dizer que o sestroso Sabino levou os inimigos... na flauta. 

A impressionante e criativa proeza do talentoso Sabino levou-o à amizade com o à época presidente da província e comandante das forças armadas do Maranhão, Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, de quem Ricardo Leão tornou-se, além de amigo, seguidor e ao lado de quem lutou muitas lutas, batalhas, guerras, Brasil adentro e país afora, a ponto mesmo de ser ferido a bala umas cinco vezes e ter sido morto João, um dos filhos que levou para essas lutas. 

Vitorioso moral e militarmente, Ricardo Leão Sabino, entretanto, saiu financeiramente pobre dessas batalhas. Soube, durante uma delas, em 8 de novembro de 1843, que seu pai e sua mulher haviam morrido no Maranhão e prometeu a si mesmo não mais voltar à sua terra natal. 

Nos idos dos anos 1870 e em diante Ricardo Leão Sabino era um homem sem maiores recursos financeiros e com muitos filhos para criar. 

Tentou de tudo, menos a desonestidade. 

Houve momentos tão críticos que, enquanto ele procurava ganhar algo em outros lugares para sustentar a família, sua esposa e filhos tinham de fazer costuras e tinham de tirar uma espécie de líquido de flores de laranjeiras para vender, talvez para uso em boticas ou indústrias cosméticas. Com o pouco apurado, a família de Ricardo Sabino comprava o bocado de cada dia. 

Seu temperamento forte não admitia humilhação. Perdeu postos militares para si e para seus filhos por causa de sua postura firme e sincera, mesmo diante de autoridades superiores. Escrevia cartas em jornais cobrando explicações e direitos -- até para o Imperador. Anunciava seus talentos de dentista diplomado, professor de música e de línguas e seus teatrinhos de bonecos para crianças. Não desistia. 

Em 1895 publicou seu único livro, “Deus e Alma”, uma raridade no mercado bibliográfico. 

Querendo rever lugares por onde passou, fez um pedido a seu filho Horácio Belfort Sabino. Horácio era homem de espírito empreendedor, considerado o grande responsável pela urbanização de São Paulo (há anos a maior cidade do país, com seus 11 milhões de habitantes e 1.500 quilômetros de área, território quase quatro vezes menor do que o de Caxias). Pediu o velho Ricardo que Horácio o levasse a Portugal. Ali, em Lisboa, em 17 de abril de 1902, seis dias após completar 88 anos, já surdo, quase cego e doente de pneumonia, veio a falecer. Depois, seus restos mortais foram trasladados para o Brasil. 

Apesar de sua vontade de rever as terras portuguesas onde estudou, casou-se e lutou ao lado de dom Pedro 1º, apesar do golpe pela perda no Maranhão de dois entes queridos (pai e esposa, em 1843), apesar de ter jurado não voltar mais para a pátria maranhense, o Maranhão nunca deixou o coração, a alma e a mente de Ricardo Leão Sabino. Em uma correspondência datada de 8 de agosto de 1901, endereçada ao esposo de uma de suas netas, o velho Leão de tantas guerras, muita luta e pouco reconhecimento material em vida, diz com todas as letras que queria voltar para cá, queria estar junto de nós. O Maranhão do início do século 20 era uma província mais livre e melhor, pelo menos em relação aos sufocos bélicos e fratricidas pelos quais passara. 

Diz o quase nonagenário Ricardo Leão em um trecho da carta: 

“Continuo no mesmo estado, muito surdo, quase cego, só leio e mal com uma forte lente. 88 anos, durmo e como bem, ando em velocípede, isto é, regulando o equilíbrio; se fecho os olhos caio, de noite logo que o sol se recolhe fico cego de todo, por isso não saio de casa. A inteligência é muito clara, a memória quase perdida, um nome que se me diz, se não escrevo, cinco minutos depois já não me lembro! Ainda faço versos, mas é preciso ir escrevendo à medida que vou fazendo." 

“Moramos com meu filho Horácio na Avenida Paulista, mas cartas não vêm aqui e sim Vila Buarque, rua General Jardim, 42, casa de minha filha Amélia.” 

E quase ao final, expressa o velho guerreiro, 252 dias antes de morrer:  “Desejo muito retirar-me para o Maranhão, a fugir do frio que já não suporto. São Paulo está sempre em movimento, bondes elétricos etc. Para mim é tarde!” 

***** 

Caxias não é apenas, mas também, terra e rima de GONÇALVES DIAS, nosso poeta de referência, etnógrafo, professor, fundador do Indianismo na literatura brasílica. 

Somos a cidade do autor da Bandeira Brasileira, TEIXEIRA MENDES, sem o qual correríamos o risco de ter, como nossa, a bandeira dos Estados Unidos... pintada de verde e amarelo... -- que, aliás, perdurou por quatro dias, de 15 a 18 de novembro de 1889, até o caxiense entregar e defender a nova bandeira no dia 19, ainda hoje o Dia da Bandeira Nacional. 

Somos a cidade em que se inspirou o Patrono do Exército Brasileiro, Luís Alves de Lima e Silva, para ter seu título de nobreza, de Barão a Duque de Caxias. 

Somos a cidade cujo nome -- Caxias -- deu origem ao nome de duas outras grandes cidades brasileiras, uma no Rio Grande do Sul, cuja economia é dez vezes maior do que a nossa, e a outra no Rio de Janeiro, cuja economia é vinte vezes maior do que a do nosso município caxiense. Mas Economia, sozinha, não sustenta uma cidade se ela não tiver como base e lastro a força da História e a identidade da Cultura de um povo. 

Somos a cidade do Príncipe dos Prosadores Brasileiros, COELHO NETO, 150 anos de nascimento agora em fevereiro de 2014, um raro caso, senão único, de caxiense, maranhense e brasileiro para o qual os argentinos curvaram-se em reverência a seu talento, convidado para dar palestras naquela grande nação sul-americana. E o que Caxias está fazendo, desde agora, para dizer ao mundo Brasil que Coelho Neto é caxiense? 

E, nestes tempos em que tanto se fala da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, vale lembrar que foi um filho do caxiense Coelho Neto, João, apelidado “Preguinho”, o autor do primeiro gol da Seleção Brasileira de futebol em Copa do Mundo. 

Caxias é a cidade do médico e historiador de referência estadual e nacional, CÉSAR MARQUES -- patrono deste Instituto. Do poeta de “Cousa Alguma...”, VESPASIANO RAMOS. 

Somos a cidade da família do fundador da universidade privada mais antiga do Brasil, a Universidade CÂNDIDO MENDES, no Rio de Janeiro, que é do início do século 20. 

Somos a terra do odontólogo considerado “Glória da Odontologia Nacional”, ADERSON FERRO. E é de deixar de boca aberta o que Caxias desconhece e não faz para reassumir a maternidade desse ilustre filho, reconhecido e homenageado em outros lugares -- mas não aqui. 

Somos a terra do advogado e abolicionista redator da Lei do Ventre Livre, também considerado o jornalista mais completo do Brasil de todos os tempos, JOÃO MENDES DE ALMEIDA -- que tem busto e praça com seu nome na maior cidade brasileira, São Paulo, além do nome de seu filho, João Mendes de Almeida Júnior, dado ao fórum paulistano... enquanto em Caxias quem sabe dele?, Quem o estuda?, Que escola ou rua ou praça recebe seu nome?, Que homenagens lhe são creditadas?, Que honrarias lhe são, mesmo pós-morte, atribuídas? 

Somos a terra de ANDRESA MARIA DE SOUSA RAMOS, a Mãe Andresa, sacerdotisa de culto afro-brasileiro de renome internacional, última princesa da linhagem direta fon, que comandou durante 40 anos a Casa de Mina em São Luís, até morrer em 1954, aos cem anos de idade. Escritores, sociólogos e antropólogos brasileiros e estrangeiros escreveram sobre Mãe Andresa, cujos cem anos de vida é o mesmo tempo de esquecimento pelos caxienses, que sobre ela nada escreveram, e pelas sucessivas autoridades locais, que nem disso se interessam por saber. O que aqui se sabe e o que aqui se faz acerca de Mãe Andresa? 

Somos a terra do grande UBIRAJARA FIDALGO DA SILVA, o primeiro dramaturgo negro brasileiro, ator, diretor, produtor, bailarino, apresentador de TV e criador do Teatro Profissional do Negro, reconhecido e homenageado nos grandes centros brasileiros como Rio de Janeiro e São Paulo. Enquanto isso, em Caxias, quem sabe da existência de tamanho talento, falecido em 1986, no Rio de Janeiro? Quem de Caxias ou do Maranhão já patrocinou montagem de suas peças, a edição de seus textos, encenados e inéditos? Qual autoridade caxiense bancou uma exposição sobre seus trabalhos, a exibição de documentários sobre Ubirajara Fidalgo, desconhecido em vida pelos caxienses e não reconhecido após a morte, e cuja filha, a cineasta Sabrina Fidalgo, luta pela preservação e divulgação da obra de seu pai e nosso conterrâneo? 

Somos a terra de CÂNDIDO RIBEIRO, considerado “o maior industrial do Maranhão dos séculos 19 e 20”. Quem dos caxienses sabe da vida deste empreendedor, do que fez em seu tempo, das inovações que implantou, das tecnologias que no estrangeiro estudou e no Maranhão e no Ceará as adotou? Que instituição empresarial e coisa e tal já o homenageou, deu-lhe o nome a um prédio, sala, biblioteca, auditório, e que curso de Administração, Economia, Contabilidade o coloca como nome de turma em formatura ou pelo menos como conteúdo transversal, tema de palestra? 

Em Caxias nasceu CÉSAR FERREIRA OLIVEIRA, “revolucionário constitucionalista” em São Paulo e “Herói da Guerra de Canudos”. Em Caxias nasceu JOÃO CHRISTINO CRUZ, criador do Ministério da Agricultura, agrônomo que fez estudos em outros países e é o presidente de honra da Sociedade Nacional de Agricultura. 

Caxias é cidade de fundadores de cidades. Dois exemplos: aqui nasceram CARLOS GOMES LEITÃO, magistrado, político, fundador do município paraense de Marabá, em 1894, e de ELIAS FERREIRA BARROS, fundador, em 1809, de Carolina, um dos maiores paraísos turísticos do Maranhão. 

Somos a terra de ELPÍDIO PEREIRA, maestro e músico de renome internacional, autor do Hino caxiense, estudou e apresentou-se na França e em diversos estados brasileiros -- mas, em Caxias... Caxias não se toca. 

Somos a terra de JOÃO LOPES DE CARVALHO, pintor e desenhista, que estudou sua arte em Portugal, onde, por seu grande talento, já aos 16 anos, em 1862, foi elogiado por muitos jornais de Lisboa. Mas nada se sabe dele em Caxias. Aqui ele não pinta no pedaço... 

Caxias é a terra de JOAQUIM ANTÔNIO CRUZ, médico, militar e político, participou da demarcação de fronteira do Brasil com a Argentina e votou pela lei que terminou por abolir os castigos corporais nas Forças Armadas. Em Caxias, o castigo a esse nome permanece, aplicado com o látego do esquecimento. 

Foi em Caxias que nasceu um dos mais realizadores governadores do Estado: PAULO RAMOS, advogado, deputado federal, interventor e governador do Maranhão, criador, entre outras instituições, do Banco do Estado do Maranhão e da Rádio Timbira. 

Caxias é a orgulhosa terra de TEÓFILO DIAS, advogado, jornalista e escritor, introdutor do Parnasianismo no país e colocado por Sílvio Romero entre os “quatro dos maiores poetas do Brasil”. Quem lê e quem declama Teófilo Dias? Alguma empresa ou órgão público reeditou suas obras? 

Somos a terra de SINVAL ODORICO DE MOURA, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, ainda hoje um raro caso de alguém que governou quatro estados – Amazonas, Ceará, Paraíba e Piauí. Para um homem desse tamanho, a lembrança que Caxias lhe manda é a retirada de seu nome da rua Conselheiro Sinval, em um estranho jogo de camarilha político-partidário-institucional onde de um lado joga-se falta de critério e excesso de bajulação e, do outro lado, a desconsideração à História e o desrespeito à tradição. Grande obra essa de mudarem-se placas com tanta facilidade e displicência como se nossas ruas e avenidas fossem automóveis de contraventores. Mudam-se, à vontade de grupos, as denominações de uma mesma rua como se faltassem ruas e outros logradouros ainda sem nomes oficiais... 

Exceto pela lembrança do patronato de uma cadeira na Academia Caxiense de Letras, somos a terra-mãe ingrata ao filho CELSO ANTÔNIO SILVEIRA DE MENEZES, pintor, professor, escritor, um dos precursores da arte moderna no país, considerado um dos maiores escultores do Brasil, elogiado por Manuel Bandeira, Coelho Neto, Carlos Drummond de Andrade e Otto Lara Resende. Aliás, foi Otto Lara Resende que, indignado com a falta de reconhecimento ao talentoso escultor caxiense, escreveu em manifesto: 

“Como simples testemunha do meu tempo, considero um absurdo que até hoje, no final de 1989, um artista do valor e da importância de Celso Antônio não tenha tido ainda o reconhecimento que merece. É sabido que a morte impõe um período de silêncio, como se entre a posteridade e o morto ilustre fosse necessário fazer uma reflexão para reavaliar o que significou de fato a sua contribuição para a cultura nacional. 

Quem quer que tenha interesse pelas artes e pelas letras no Brasil sabe a importância de Celso Antônio. Nem é preciso ter sido seu contemporâneo, ou ter acompanhado, mesmo à distância, o itinerário que o artista percorreu. Não lhe faltou sequer o sal da grande controvérsia, quando sua arte foi vítima da incompreensão e da burrice. 

Celso Antônio, tendo vivido e trabalhado num momento de renovação cultural em todas as frentes, foi um grande artista inovador. Com um temperamento discreto, alheio ao marketing das celebridades de quinze minutos, o grande artista teve ao seu lado as melhores inteligências e sensibilidades do seu tempo. Bastaria citar três grandes nomes, entre os seus fervorosos admiradores: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Rodrigo M. F. de Andrade. 

Tudo o que se fizer em favor de Celso Antônio, a partir de agora, é justo e oportuno. Chega tarde, mas ainda chega a tempo de saldar uma dívida que o Brasil tem para com esse extraordinário artista, que conheci, admirei e defendi, quando foi vítima da agressiva estupidez dos que se trancam na rotina e no ar viciado do academicismo"

Senhoras e Senhores: Quando um nome da credibilidade e da altura intelectual de Otto Lara Resende escreve isso de um conterrâneo nosso, onde devemos pôr a nossa cara? 

E muito poderíamos dizer acerca de tantos que já morreram fisicamente, entre os quais ABREU SOBRINHO (jornalista, ex-prefeito de Eugênio Barros), ADERSON GUIMARÃES (cônego, latinista, jornalista, professor), ALDERICO SILVA (empresário pioneiro, jornalista, acadêmico), ANICETO CRUZ (empresário pioneiro, jornalista), BENEDITO JOAQUIM DA SILVA (primeiro prefeito de Caxias pós-Revolução de 1930), CID ABREU (escritor, professor, latinista, acadêmico), CLÓVIS VIDIGAL (monsenhor, educador), DÉO SILVA (poeta, jornalista), DIAS CARNEIRO (os dois: o industrial e jornalista e o magistrado e desembargador), ELEAZAR SOARES CAMPOS (advogado, professor, magistrado, escritor, interventor federal do Maranhão), FLÁVIO TEIXEIRA DE ABREU (advogado, jornalista, escritor, poeta, professor), GENTIL MENESES (administrador, jornalista, escritor), HERÁCLITO RAMOS (jornalista, escritor, poeta; irmão de Vespasiano Ramos), KLEBER MOREIRA DE SOUSA (jornalista), LAURA ROSA (poeta, escritora), LIBÂNIO LOBO (escritor, acadêmico), MARCELLO THADEU DE ASSUMPÇÃO (médico humanitário, professor, criador e mantenedor de escola gratuita, prefeito de Caxias), NEREU BITTENCOURT (professor, escritor), NILO CRUZ (magistrado, desembargador), ODORICO ANTÔNIO DE MESQUITA (advogado, político, magistrado), OSMAR RODRIGUES MARQUES (jornalista e escritor), RAIMUNDO FONSECA FREITAS NETO (poeta), SINÉSIO SANTOS (fotógrafo), TIA FILOZINHA (Filomena Machado Teixeira, professora), VÍTOR GONÇALVES NETO (jornalista, escritor), WALFREDO DE LOYOLA MACHADO (jornalista, bacharel em Direito, escritor), WILSON EGÍDIO DOS SANTOS (professor universitário, escritor, odontólogo)... 

Agora mesmo temos gente viva (não confundir com gente esperta...), quatro mulheres caxienses, que, voluntária ou involuntariamente, contribuem para repor ou remarcar uma parte do “status” de nossa terra como destaque nacional senão internacional: ALINE DE LIMA, cantora de destaque na França e em outros dez países; BRUNA GAGLIANONE, bailarina de destaque, premiada pelo Balé Bolshoi, de cujo corpo de dançarinos do Teatro Bolshoi agora faz parte, na Rússia, segundo ela própria me confirmou na data de hoje; MARISE CASTRO, ainda criança, eleita em 2010 mini-miss beleza mundial; e TITA DO REGO SILVA, destaque na Alemanha em Artes Plásticas. 

Seja na Administração (Empresarial e Pública), nas Artes, na Cultura, no Direito e Justiça, na Literatura, Música, Beleza (temos nossas misses caxienses), a relação não intencional e aleatória dos nomes anteriores é só uma impressão digital, marca pequena no grande “corpus” cultural, artístico, político, histórico e social do município caxiense. É patente que o céu histórico-cultural de Caxias tem mais estrelas. Muito mais 

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As palmas são para os milhares de talentosos e corajosos caxienses que, no passado, de 400 anos para cá, na sua terra ou fora dela, fizeram coisas ou defenderam causas que se agregaram ao patrimônio comum do incontido orgulho de sermos caxienses. 

Muito obrigado. 

Caxias, Maranhão, 13 de dezembro de 2013

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O texto aqui apresentado é apenas um trecho do pronunciamento de posse do escritor Edmilson Sanches no Instituto Histórico e Geográfico de Caxias. A íntegra do discurso pode ser solicitada via  Facebook ou pelo e-mail esanches@jupiter.com.br.