sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O amor de Ana Amélia pelo poeta Gonçalves Dias

OCEANOS NÃO PACÍFICOS
                                         Por Wybson Carvalho


Inverno de 1870, na cidade de São Luis do Maranhão. Parecia ser interminável aquela chuva à beira-mar, nas proximidades da rampa Campos Melo: local de muita movimentação em atracação, embarque e desembarques das embarcações marítimas que, ali, chegavam e partiam trazendo e levando mercadorias e gente. Naquele local de chegada e partida havia muito trabalho de homens pescadores, estivadores, arrumadores e, ainda, de passageiros em viagens nas embarcações que faziam a travessia do Boqueirão Maranhense: pedaço do Mar que sempre estava submetido a Maremotos no período de inverno rigoroso. Enfim, um cenário de muitas histórias de naufrágios e desaparecimento de embarcações com tripulação e passageiros.

Porém, era mesmo um inverno rigoroso. A chuva nunca dava trégua e era quase impossível que alguém saísse de casa para realizar alguma atividade que não fosse relacionada diretamente à viagem, ali, na rampa Campos Melo. Mas, diariamente, por lá, uma pessoa era notada: tratava-se de uma senhora muitíssimo bem-vestida, com uma luz advinda de dois grandes e irrequietos olhos verdes e com ares esperançosos de quem sempre estivesse esperando por alguém que prestes a chegar. A presença daquela senhora, sempre no mesmo lugar olhando o Mar, como se de lá estivesse acenando para um outro alguém que só a sua própria imaginação criasse. Algumas pessoas mais acostumadas, diariamente, com aquela presença imponente de uma senhora que parecia ser da alta burguesia ludovicense, chegavam a comentar: - “Aquela senhora é a Ana Amélia; a musa do poeta Antônio Gonçalves Dias que, desde que se tornara viúva, passara a está sempre presente na rampa Campos Melo como se estivesse à espera da chegada do poeta náufrago, desde o ano de 1864, quando tentava regressar da Europa para sua terra, o Maranhão”.


                         Ana Amélia foi, na realidade, o eterno amor do poeta Gonçalves Dias, aquela pela qual ele, também, vivera um imenso amor. Porém, por motivos de discriminação familiar, em face ao racismo, e, à desigualdade de classe social, ambos não tiveram o prazer de vivenciar aquele amor fiel, verdadeiro e que nunca acaba, um amor impossível de ter sido vivido, mas que ficou na memória e no espírito de Ana Amélia mesmo após o desaparecimento de Gonçalves Dias. E sobre esse triste fato, ocorrido em 1864, num naufrágio, bastante noticiado pelos jornais da época, sempre nas matérias jornalísticas havia a notícia de que o corpo de Gonçalves Dias jamais fora encontrado. Então, Ana Amélia, que era casada no período, que aconteceu o naufrágio, no qual desapareceu o poeta Gonçalves Dias, após se tornar viúva em dois casamentos, ia todos os dias à rampa Campos Melo; como se, lá, um dia talvez, ela tivesse um grande encontro com o seu única amado, Gonçalves Dias; como se do fundo do Mar o poeta emergisse e chegasse aos seus braços. Pra Ana Amélia, já viúva por duas vezes, isso seria possível. 

Muitas vezes algumas pessoas a ouviam a falar sozinha: - “Um poeta nunca morre ele se encanta e o meu Antônio, meu único e verdadeiro amor está vivo no meu coração e eu tenho a certeza de que ele um dia virá numa dessas embarcações ao meu encontro e nós viveremos nosso amor para sempre, pois sou aquela que ele sempre criou em seu desejo, aquela que ele sempre idealizou em sua imaginação, enfim, aquela que ele amaria e viveria para sempre com esse amor” - “O meu amor, Antônio Gonçalves Dias, um dia virá... talvez quando esse inverno acabar e der luz aos céus para iluminar nosso encontro com raios de sol e nós, então, iremos sentar a um banco do Largo dos Amores e confessar, um ao outro, todo o quanto podemos amar dali por diante, sem que nada mais possa nos atrapalhar” - “Mas, se nunca vier ao meu encontro é porque ele estará me esperando lá nas profundezas desse mar que o esconde de mim. Ai, eu pedirei ao meu bom Deus que me torne, pelo menos, um pingo de sal envaido e mergulhado nesse Mar para que eu possa ir ao seu encontro”. - “Os amores verdadeiros nunca morrem e sim se transformam noutras naturezas para se tornarem lendas encantadas a fim de alimentar novas paixões aos que saberem sobre nós, os verdadeiros amantes”.

E, assim, há mais de século comenta-se que, ali, na beira-mar, em São Luis do Maranhão, nas proximidades da rampa Campos Melo, as ondas do mar sempre às 18h00, em cada dia de maré enchente, entoam uma canção de amor em louvor ao amor de Gonçalves Dias e Ana Amélia. Pois, há quem diga que seu desejo fora satisfeito pela Divindade: um dia daqueles tempos Ana Amélia se transformou em um punhado de sal que mergulhou esvaído ao mar e foi ao encontro do encantamento de seu amado.  Não se sabe bem a certeza desse encontro, mas, ainda, hoje, comentam que nas últimas vezes que Ana Amélia fora vista, ali, àquela espera, tinha sempre seus olhos verdes quase que transformados em dois “Oceanos Não Pacíficos”.       


* Conto do poeta Caxiense Wybson Carvalho

2 comentários:

  1. Ângela Maria gomes pereira12/18/2014 03:27:00 PM

    Mas se um dia quiseres voltar, para este casulo, onde um dia encontrastes, encarnados, o corpo e a alma deste que ama e espera, volta volta, e começa junto comigo a bordar, com o fio da paciência, o manto que irá aquecer o frio do inverno, necessário para que venha brotar as sementes, que na tua ânsia de viver, ajudaste a plantar. è mesmo um conto ou poesia?

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